quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Seminário Paulo e Estevão - Parte 01

Seminário Paulo e Estevão

Proferido por Haroldo Dutra Dias, com base na obra psicografada por Chico Xavier, de autoria do Espírito Emmanuel.

O expositor, Magistrado espírita, vinculado à União Espírita Mineira, promoveu discussão acerca da obra Paulo e Estevão, no auditório da Federação Espírita Brasileira. Os esclarecedores conteúdos doutrinários nos preparam para superar os difíceis momentos de transição em plena vigência no planeta.

Assuntos:
- Paralelo entre os Atos dos Apóstolos e o romance Paulo e Estevão;
- Biografias de Paulo e Estevão;
- Viagens missionárias de Paulo;
- Cartas de Paulo.

Seminário Paulo e Estevão - Parte 02

Seminário Paulo e Estevão

Proferido por Haroldo Dutra Dias, com base na obra psicografada por Chico Xavier, de autoria do Espírito Emmanuel.

O expositor, Magistrado espírita, vinculado à União Espírita Mineira, promoveu discussão acerca da obra Paulo e Estevão, no auditório da Federação Espírita Brasileira. Os esclarecedores conteúdos doutrinários nos preparam para superar os difíceis momentos de transição em plena vigência no planeta.

Assuntos:
- Paralelo entre os Atos dos Apóstolos e o romance Paulo e Estevão;
- Biografias de Paulo e Estevão;
- Viagens missionárias de Paulo;
- Cartas de Paulo.

O Espírito

Um dia, um médico materialista resolveu questionar um de seus pacientes que ele sabia ser seguidor da doutrina espírita. Enquanto examinava o rapaz o médico foi logo perguntando:
- Você tenta ajudar os espíritos com sua doutrina?
- Sim! Respondeu
- Você já viu um espírito?
- Não, disse o paciente.
- Você já ouviu um espírito falando?
- Não, falou o espírita.
- Você já sentiu algum espírito?
- Não
Pois bem, completou triunfante o medico, temos ai três argumentos contra, e um a favor da existência do espírito ou da alma. Logo se conclui que, segundo a lógica, não existe nem um, nem outra.
O paciente então perguntou ao medico
- Você, como médico já viu uma dor?
- Claro que não, respondeu o médico.
- Você já provou uma dor?
- Não
- Você já cheirou uma dor?
- Não
- Você já sentiu uma dor?
- Sim! Disse, finalmente o medico.
Pois bem, conclui o paciente, temos ai três argumentos contra e um a favor da existência da dor. Apesar disso, você sabe que existe a dor, e eu sei que existem espíritos.
Somos feitos de sombra e luz. Somos seres materiais, sujeitos a todas as mudanças da matéria. E somos espíritos, com riquezas latentes e esperanças radiosas. Cada alma humana é uma projeção do grande foco eterno. Temos em nos os instintos dos animais mais ou menos comprimidos pelo trabalho longo e pelas provas das existências passadas. Temos também em nós a crisálida do anjo, do ser radioso e puro, que podemos vir a ser pelas aspirações do coração e pelo sacrifício constante do eu. Somos seres que tocamos as profundezas sombrias do abismo, com os pés e com a fronte, as alturas fulgurantes do céu.

Quanto mais se eleva o espírito e se purifica, tanto mais se torna acessível às vozes do alto. Tudo o que vem da matéria é instável. Tudo passa. Tudo foge. Os montes a pouco vão sendo abatidos pela ação dos elementos. As maiores cidades se convertem em ruínas. Os astros se ascendem, resplandecem. Depois se apagam e morrem. Só a alma é imperecível, imortal. Acima das civilizações extintas, sobrevivem as almas. Através dos tempos, a alma caminha, adquirindo conhecimento. Vê sempre se abrirem novos campos de estudos e descobertas. Paulatinamente, vai descobrindo que por toda parte reina a ordem, a sabedoria, a providencia e seu entusiasmo e sua confiança aumentam cada vez mais. Seu destino é a perfeição. A medida que vai adquirindo virtudes, ela saboreia de maneira mais intensa as felicidades da vida espiritual.
***
Deus conhece todas as almas, que formou com o seu pensamento e seu amor. Ele as deixa percorrer vagarosamente as vias sinuosas, subir os desfiladeiros sombrios das existências terrestres, acumular pouco a pouco em si os tesouros de paciência, de virtude e de saber, que se adquirem na escola do sofrimento. Mais tarde, amadurecidas pelos raios do sol divino, saem da sombra dos tempos e suas faculdades desabrocham em feixes deslumbrantes.
Daí em diante são luz que irradia e se revela em obras que refletindo o próprio ceiador.

Texto da Equipe de Redação do Momento Espírita.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Proposta de Felicidade

Muitas são as diretrizes que indicam caminhos para se encontrar a felicidade. Muitas sugestões e conselhos foram dados para os que procuram pela felicidade. Essas iniciativas são positivas, quando nascidos do desejo sincero de ajudar. E são necessários porque cada pessoa poderá seguir pela rota que mais lhe seja favorável, e que esteja de acordo com suas forças e entendimento.
Os caminhos para a felicidade são muitos. Uns mais curtos e mais íngremes e exigem mais esforço e renuncias. Outros são mais longos e mais planos, mas todos conduzem ao mesmo fim. A felicidade é sem duvida, uma construção diária, que mais se afetiva quanto mais a ela nos dedicamos. Quanto mais conscientes dos passos que nos levarão ao seu encontro, mais perto dela estaremos. Mas enquanto não conseguimos conquistar a felicidade suprema, podemos ir preparando o caminho com algumas atitudes fáceis e lucidas, nos passos de cada dia.
Eis algumas dicas:
Use expressões meigas e cobertas de ternura.
As energias afáveis favorecem uma atmosfera de paz no coração que as exercita.

Busque visão otimista sobre as pessoas.
Enxergue o lado bom que todos nos possuímos.

Pequenos gestos de bondade por dia alicerçam as grandes atitudes do amanha, sedimentados os nobres e elevados sentimentos.

Silencie diante das criticas as atitudes infelizes do próximo.
Somos nos mendigos do entendimento alheio ante nossos equívocos repetidos.
Aprenda a deixar fluir a compaixão, quando a dor espelhar-se na alma do próximo. Condicionara, desta forma, as próprias forças no caminho da caridade irradiando o calor da fraternidade por onde passar.

Sorria ainda que esteja atravessando difíceis momentos na Terra.
O sorriso gera simpatias e afasta invernos escuros, permitindo o brilho do sol da esperança para você e para tantos que atravessam seu caminho.

Mantenha a calma em qualquer situação.
Quem condia em Deus e esta convicto de sua providencia infalível, sabe que recursos necessários chegarão tanto mais rápido e precisos quanto estivermos em posição na vida.

Tolere o mais que possa. Perdoe sempre. Leve paz onde houver dissensões.
Conceda  ao irmão do caminho a gentileza de sua sincera alegria pelas conquistas dele.

Quem semeia brisas suaves não enfrentara os tufões da agonia em estradas futuras.

Demonstre desprendimento natural.

Prossiga leve com as aspirações elevadas.

A cada dia coloque-se como instrumento de construção, ciente que Deus nos favoreça com a benção do serviço, para que sua presença seja sentida no mundo por nosso intermédio.

Você, e somente você é responsável pela sua felicidade ou sua desdita.
Seu caminho para a felicidade só pode ser construído por você, mais ninguém.

Se hoje você encontra em seu caminho pedras e espinhos, é porque houve um tempo em que você se descuidou do seu jardim.

Por isso, é importante não perder mais tempo. Selecione a boa semente e comece agora a reflorir seu caminho para que possa encontrar, logo mais, o perfume agradável da boa semeadura. Pensa Nisso!


Texto da Equipe de Redação Momento Espirita.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Amor: essência divina

Introdução
A busca constante do conhecimento faz parte da existência humana. Estamos sempre procurando aprender mais e mais. Por muitas vezes, esse processo faz-se mais fácil, por termos hoje instituições de ensino bastante avançadas em muitas áreas.
Há no entanto, outras áreas onde o conhecimento é obtido apenas através de extensas pesquisasobservações e deduções, uma vez que podemos não dispor de todas as condições necessárias para o aprendizado imediato.
Como exemplo, citamos o conhecimento sobre nossa pré-história, que obviamente não pode ser feito sob observação direta, mas através da análise das pistas deixadas por nossos ancestrais. Dessa forma, sem mesmo termos visto um deles, aprendemos muito sobre sua forma de vida e subsistência, o período em que por aqui estiveram, apenas observando os fragmentos de ferramentas e utensílios deixados por eles.
Transportemos agora essa analogia, para o nosso Criador Maior: estamos ainda muito distantes de possuir as condições necessárias para que possamos olhar para Ele , e compreendê-Lo diretamente. Entretanto estamos em um estágio que nos permite ao menos observar ao nosso redor e termos uma idéia (ainda que bastante simples) de quem é Deus, através das “pistas” que coloca diante de nossos caminhos. Kardec nos aponta n’A Gênese, que “Deus não se mostra, mas se revela pelas suas obras”.
Num período em que a Terra está passando por complexas transformações, objetivando um período de renovação (e bem sabemos que todo processo de transformação traz necessariamente extensos conflitos), é natural que se torne bastante complicado para um observador mais desatento, a compreensão da afirmativa tão popular de que Deus é Amor.
Propomos então aos amigos, que nos acompanhem nos próximos minutos neste modesto exercício de raciocínio, onde procuraremos observar como esse amor divino tem nos acompanhado: nosso tema da noite é “Amor, Essência Divina”.
A Gênese
O aparecimento do homem, descrito de forma bastante poética na Gênese Bíblica, mostra que Deus preocupou-se em nos oferecer um mundo que contivesse as condições adequadas para nossa subsistência, pois tomamos a Terra como morada apenas depois dela ter sido convenientemente preparada para a nossa vinda.
E continua a Gênese, que ao “criar-nos” disse Deus: -“Façamos o homem à Nossa imagem e semelhança”.
É certo que não somos perfeitos à semelhança do Pai, mas o Seu amor infinito por nós permitiu-nos ser perfectíveis. Somos então semelhantes a Ele, por possuirmos dentro de nós, as sementes de todas as qualidades e virtudes que O compõe, em particular, Seu amor. Cabe a nosso esforço próprio, levar estas sementes a produzir muitos e muitos frutos (o pai que ama verdadeiramente, não faz as lições de casa para o filho, mas orienta-o e o apóia para que ele consiga tirar sua nota dez através de seu próprio esforço).
Moisés
Seguindo-se ao grande gesto de amor de Deus para conosco, o Pai começou a passar-nos as primeiras “lições” de humanidade. Vamos nos deparar mais uma vez com esse amor “atravessando nosso caminho”, com o advento da primeira revelação, feita a Moisés. A importância do cultivo do amor por todos os homens é bastante clara, e por isto mesmo ele aparece em primeiro lugar, na tábua dos 10 mandamentos, que hoje conhecemos como:
“Amar a Deus sobre todas as coisas”.
Pelas contingências do momento, a Lei de Moisés era bastante severa. Só assim ele teria algum sucesso em conseguir controlar um povo ainda bastante turbulento e indisciplinado, recém saído de um austero regime de escravidão.
Embora a mensagem fosse de amor, o deus apresentado era ainda tirânico. O amor e o respeito a Ele ainda eram obtidos através da imposição pela força. Por isso mesmo as Leis mosaicas tinham um caráter transitório. A postura de Moisés era de autoridade, mas a mensagem divina começava a abrir nossas mentes para a importância desse amor.
Jesus
As coisas continuaram assim ainda por muito tempo, permitindo ao ser humano que ao menos se acostumasse com a idéia. No momento oportuno, Deus nos enviou então a segunda revelação, através de nosso Mestre Maior, Jesus.
Desde o princípio Ele posicionou-se como um continuador das Leis Divinas, conforme encontramos em Mateus, V: 17:
“Não penseis que vim destruir a lei ou os profetas; não vim para destruí-los, mas para dar-lhes cumprimento.”
Dessa forma, sem nada destruir, Ele veste com uma roupagem mais moderna e adequada para os homens de Seu tempo, as duras leis pregadas por Moisés. Os dez mandamentos, ficam a partir de então, limitados a apenas dois, que abrangem todos os outros. Em Suas próprias palavras, nos afirma serem os mandamentos (Mateus XXII, 34-40):
“Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, este é o maior e o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Estes dois mandamentos contêm toda a lei e os profetas.”
De princípio, Jesus ratifica a importância da presença do amor em nossas vidas, conservando esse mandamento que já havia sido colocado por Deus há vários milênios atrás. Afirma que só há um imperativo moral realmente fundamental - amar - do qual todos os outros princípios derivam.
A seguir, amplia o conceito deste amor: se antes era suficiente apenas o amor ao criador supremo, agora começa a brotar a necessidade de se estender esse amor também ao próximo. Nada mais claro, pois o mesmo amor devido ao Criador, por extensão também deve ser aplicado a todos aqueles que foram feitos segundo à imagem e semelhança deste mesmo criador! Acrescenta ainda, que esses mandamentos compreendem tudo o que foi ensinado antes.
Por fim, Jesus tira esses conceitos da “folha de papel” e mostra que é perfeitamente possível colocá-los em prática. Enquanto a doutrina de Moisés é despótica, não admite discussão e é imposta pela força, a doutrina de Jesus é essencialmente conselheira: é livremente aceita e só se impõe pela persuasão.
Se o Cristo foi o maior dos missionários e dos profetas, foi porque trazia em si um reflexo mais poderoso do Amor Divino. Em Sua postura de total dedicação ao próximo, atendeu a todos; até mesmo à mulher adúltera e ao criminoso, sem temer prejudicar a Sua própria reputação.
Jesus passou pouco tempo na Terra. Foram suficientes três anos de evangelização para que o Seu domínio se estendesse a todos os cantos do planeta. Não foi pela ciência, nem pela oratória que Ele seduziu e cativou as multidões: foi pelo amor! Mesmo depois de sua morte, Seu amor ficou no mundo, como um foco sempre vivo. Por isso, apesar dos muitos erros e faltas cometidos em Seu nome, por aqueles que se diziam Seus justos representantes, o Cristianismo atravessou os séculos e continua presente ainda hoje, moldando a alma humana.
Espiritismo
Ao chegarmos aos dias atuais, deparamo-nos com a terceira revelação, que nos foi trazida não mais por apenas um representante divino como havia sido nas duas vezes anteriores, mas por uma grande quantidade de espíritos. Estamos falando da doutrina espírita.
Ela surge num período de emancipação e madureza intelectual do ser humano, que nada mais aceita às cegas, mas quer ver aonde o conduzem, que saber o porquê e o como de cada coisa.
Coube a Kardec coletar e compilar todas as informações passadas pelos espíritos, em diversos pontos do mundo, dando origem à codificação da doutrina espírita.
Assim como Jesus, o Espiritismo não vem contrariar as leis divinas: seu objetivo é aproveitar da melhor forma possível os recursos intelectuais do homem para através de mais este canal, facilitar a compreensão dos desígnios de Deus. E o caminho escolhido pelos espíritos, foi novamente nos esclarecer através do amor divino.
Diga-se de passagem, que o próprio trabalho de Kardec durante a preparação das obras da codificação, foi um belo exemplo de amor ao próximo, por ter suportado as duras críticas e incompreensões pelas quais passou.
Em tratando das Leis Divinas, o espiritismo nos traz em uma mesma lei, a justiça, o amor e a caridade.
Os raios de ação do amor, ampliam-se ainda mais: por vezes, confundimos amor com utilitarismo ao entendermos o amor aos semelhantes como sinônimo de promover o bem deles. O amor é mais do que simplesmente desejar beneficiar os outros; é possuir um sentimento que se manifesta em todas as atitudes exteriores, das quais o relacionamento com o próximo é apenas uma delas! E quando falamos em mudar todas as nossas atitudes, “temperando-as” ou “moldando-as” com o amor, estamos falando sobre um dos pontos mais importantes para nosso progresso, pregado pela doutrina espírita: a reforma íntima.
Aprendemos ainda que o amor é o princípio fundamental, a partir do qual derivam tantos outros.
Ele inclui a igualdade, na medida em que devemos amar ao próximo como a nós mesmos (não nos colocando em posição inferior, nem superior perante aqueles que nos são semelhantes).
O Evangelho traz ainda um segundo princípio, complementar do primeiro - o de justiça - ao nos ensinar que devemos fazer aos outros somente aquilo que desejamos que os outros nos façam.
No sentido evangélico, o amor costuma ser identificado com a caridade, que por sua vez geralmente entende-se como “dar esmolas”. É muito mais do que isso. Caridade, na língua latina, significava alta dos preços, estima; praticar a caridade com o semelhante é portanto, todo o gesto que fazemos e que valoriza este semelhante. Assim, bem distante do gesto de dar esmolas, a caridade é o amor a Deus e ao próximo, baseado na fraternidade que nos une a todos, como filhos de Deus.
Finalmente, podemos observar as uniões sinceras como um sagrado ponto de referência dessa lei única que dirige o Universo. A presença do amor que motiva a criação da família e que vem a ser a mais abençoada escola de evolução que Deus poderia ter nos dado, com todas as oportunidades de amparo, resgate, entendimento e crescimento que ela proporciona.
Conclusão
Retomando nossa linha de pensamento original, percebemos que dentro de todo o longo período de existência do ser humano, contamos sempre a orientação divina através de Seus mensageiros: Moisés, Jesus, Kardec: todos procurando esclarecer sobre quem é o nosso Criador Supremo, sendo que todos seguiram pelo mesmo caminho: mostrar o Pai através de sua essência: o amor. Assim como o Pai, o amor - que é a Sua essência - tem sido uma presença constante em toda a nossa existência como seres humanos.
Encerrando, gostaria de deixar a todos uma frase de nosso querido Chico Xavier, que mostra de forma tão sublime como ele aprendeu a cultivar o amor mais puro e sincero pelo semelhante, e de como ele hoje o distribui incansavelmente.
Mesmo cansado e abatido, ele jamais deixa de atender aos que buscam por seu auxílio. Certa vez, ao ser questionado sobre como ele conseguia ter tanta disposição para atender a todos, sempre sorridente, apesar da sobrecarga de trabalho, ele respondeu com muito carinho ao interpelante:
“- O corpo é meu, ele pode sofrer; o semblante é do próximo, ele deve sorrir!…”



quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Maria


Junto da cruz, o vulto agoniado de Maria produzia dolorosa e indelével impressão.Com o pensamento ansioso e torturado, olhos fixos no madeiro das perfídias humanas, a ternura materna regredia ao passado em amarguradas recordações.Ali estava, na hora extrema, o filho bem-amado.Maria deixava-se ir na corrente infinda das lembranças. Eram as circunstâncias maravilhosas em que o nascimento de Jesus lhe fora anunciado, a amizade de Isabel, as profecias do velho Simeão, reconhecendo que a assistência de Deus se tornara incontestável nos menores detalhes de sua vida. Naquele instante supremo, revia a manjedoura, na sua beleza agreste, sentindo que a Natureza parecia desejar redizer aos seus ouvidos o cântico de glória daquela noite inolvidável. Através do véu espesso das lágrimas, repassou, uma por uma, as cenas da infância do filho estremecido, observando o alarma interior das mais doces reminiscências. Nas menores coisas, reconhecia a intervenção da Providência celestial;entretanto, naquela hora, seu pensamento vagava também pelo vasto mar das mais aflitivas interrogações.Que fizera Jesus por merecer tão amargas penas? Não o vira crescer de sentimentos imaculados, sob o calor de seu coração? Desde os mais tenros anos,quando o conduzia à fonte tradicional de Nazaré, observava o carinho fraterno que dispensava a todas as criaturas. Freqüentemente, ia buscá-lo nas ruas empedradas, onde a sua palavra carinhosa consolava os transeuntes desamparados e tristes. Viandantes misérrimos vinham a sua casa modesta louvar o filhinho idolatrado, que sabia distribuir as bênçãos do Céu. Com que enlevo recebia os hóspedes inesperados que suas mãos minúsculas conduziam à carpintaria de José!... Lembrava-se bem de que, um dia, a divina criança guiara a casa dois malfeitores publicamente reconhecidos como ladrões do vale de Mizhep. E era de ver-se a amorosa solicitude com que seu vulto pequenino cuidava dos desconhecidos, como se fossem seus irmãos. Muitas vezes, comentara a excelência daquela virtude santificada, receando pelo futuro de seu adorável filhinho.Depois do caricioso ambiente doméstico, era a missão celestial, dilatando-se em colheita de frutos maravilhosos. Eram paralíticos que retomavam os movimentos da vida, cegos que se reintegravam nos sagrados dons da vista, criaturas famintas de luz e de amor que se saciavam na sua lição de infinita bondade. Que profundos desígnios haviam conduzido seu filho adorado à cruz do suplício? Uma voz amiga lhe falava ao espírito, dizendo das determinações insondáveis e justas de Deus, que precisam ser aceitas para a redenção divina das criaturas. Seu coração rebentava em tempestades de lágrimas irreprimíveis; contudo, no santuário da consciência, repetia a sua afirmação de sincera humildade: “Faça-se na escrava a vontade do Senhor!” De alma angustiada, notou que Jesus atingira o último limite dos padecimentos inenarráveis. Alguns  dos populares mais exaltados multiplicavam as pancadas, enquanto as lanças riscavam o ar, em ameaças audaciosas e sinistras. Ironias mordazes eram proferidas a esmo, dilacerando-lhe a alma sensível e afetuosa. Em meio de algumas mulheres compadecidas, que lhe acompanhavam o angustioso transe, Maria reparou que alguém lhe pousara as mãos, de leve, sobre os ombros. Deparou-se-lhe a figura de João que, vencendo a pusilanimidade criminosa em que haviam mergulhado os demais companheiros, lhe estendia os braços amorosos e reconhecidos. Silenciosamente, o filho de Zebedeu abraçou-se àquele triturado coração maternal. Maria deixou-se enlaçar pelo discípulo querido e ambos, ao pé do madeiro, em gesto súplice, buscaram ansiosamente a luz daqueles olhos misericordiosos, no cúmulo dos tormentos. Foi aí que a fronte do divino supliciado se moveu vagarosamente, revelando perceber a ansiedade
daquelas duas almas em extremo desalento. “Meu filho! Meu amado filho!. . .“ exclamou a mártir, em aflição diante da serenidade daquele olhar de melancolia intraduzível. O Cristo pareceu meditar no auge de suas dores, mas, como se quisesse demonstrar, no instante derradeiro, a grandeza de sua coragem e a sua perfeita comunhão com Deus, replicou com significativo movimento dos olhos vigilantes: “Mãe, eis aí teu filho!. . .“ E dirigindo-se, de modo especial, com um leve aceno, ao apóstolo, disse:
“Filho, eis aí tua mãe!”
Maria envolveu-se no véu de seu pranto doloroso, mas o grande evangelista compreendeu que o Mestre, na sua derradeira lição, ensinava que o amor universal era o sublime coroamento de sua obra. Entendeu que, no futuro, a claridade do Reino de Deus revelaria aos homens a necessidade da cessação de todo egoísmo e que, no santuário de cada coração, deveria existir a mais abundante cota de amor, não só para o círculo familiar, senão também para todos os necessitados do mundo, e que no templo de cada habitação permaneceria a fraternidade real, para que a assistência recíproca se praticasse na Terra, sem serem precisos os edifícios exteriores, consagrados a uma solidariedade claudicante. Por muito tempo, conservaram-se ainda ali, em preces silenciosas, até que o Mestre, exânime, fosse arrancado à cruz, antes que a tempestade mergulhasse a paisagem castigada de Jerusalém num dilúvio de sombras. Após a separação dos discípulos, que se dispersaram por lugares diferentes, para a difusão da Boa Nova, Maria retirou-se para a Betãneia , onde alguns parentes mais próximos a esperavam com especial carinho. Os anos começaram a rolar, silenciosos e tristes, para a angustiada saudade de seu coração. Tocada por grandes dissabores, observou que, em tempo rápido, as lembranças do filho amado se convertiam em elementos de ásperas discussões, entre os seus seguidores. Na Batanéia, pretendia-se manter uma certa aristocracia espiritual, por efeito dos laços consangüíneos que ali a prendiam, em virtude dos elos que a ligavam a José. Em Jerusalém, digladiavam-se os cristãos e os judeus, com veemência e acrimônia. Na Galiléia, os antigos cenáculos simples e amoráveis da Natureza estavam tristes e desertos. Para aquela mãe amorosa, cuja alma digna observava que o vinho generoso de Caná se transformara no vinagre do martírio, o tempo assinalava sempre uma saudade maior no mundo e uma esperança cada vez mais elevada no céu. Sua vida era uma devoção incessante ao rosário imenso da saudade, às lembranças mais queridas. Tudo que o passado feliz edificara em seu mundo interior revivia na tela de suas lembranças, com minúcias somente conhecidas do amor, e lhe alimentavam a seiva da vida.
Relembrava o seu Jesus pequenino, como naquela noite de beleza prodigiosa, em
que o recebera nos braços maternais, iluminado pelo mais doce mistério.
Figurava-se- -lhe escutar ainda o balido das ovelhas que vinham, apres sadas
acercar-se do berço que se formara de improviso.
E aquele primeiro beijo, feito de carinho e de luz? As reminiscências envolviam a
realidade longínqua de singulares belezas para o seu coração sensível e
generoso. Em seguida, era o rio das recordações desaguando, sem cessar, na
sua alma rica de sentimentalidade e ternura. Nazaré lhe voltava à imaginação,
com as suas paisagens de felicidade e de luz. A casa singela, a fonte amiga, a
sinceridade das afeições, o lago majestoso e, no meio de todos os detalhes, o filho
adorado, trabalhando e amando, no erguimento da mais elevada concepção de
Deus, entre os homens da Terra. De vez em quando, parecia vê-lo em seus
sonhos repletos de esperança. Jesus lhe prometia o júbilo encantador de sua
presença e participava da carícia de suas recordações.
A esse tempo, o filho de Zebedeu, tendo presentes as observações que o Mestre
lhe fizera da cruz, surgiu na Batanéla, oferecendo àquele espírito saudoso de mãe
o refúgio amoroso de sua proteção. Maria aceitou o oferecimento, com satisfação
imensa.E João lhe contou a sua nova vida. Instalara-se definitivamente em Éfeso, onde as
idéias cristãs ganhavam terreno entre almas devotadas e sinceras. Nunca olvidara
as recomendações do Senhor e, no íntimo, guardava aquele título de filiação como
das mais altas expressões de
amor universal para com aquela que recebera o Mestre nos braços veneráveis e
carinhosos.
Maria escutava-lhe as confidências, num misto de reconhecimento e de ventura.
João continuava a expor-lhe os seus planos mais insignificantes. Levá-la-ia
consigo, andariam ambos na mesma associação de interesses espirituais. Seria
seu filho desvelado, enquanto receberia de sua alma
generosa a ternura maternal, nos trabalhos do Evangelho. Demorara-se a vir,
explicava o filho de Zebedeu, porque lhe faltava uma choupana, onde se
pudessem abrigar; entretanto, um dos membros da família real de Adiabene,
convertido ao amor do Cristo, lhe doara uma casinha pobre, ao sul de Éfeso,
distando três léguas aproximadamente da cidade. A habitação simples e pobre
demorava num promontório, de onde se avistava o mar. No alto da pequena
colina, distante dos homens e no altar imponente da Natureza, se reuniriam
ambos para cultivar a lembrança permanente de Jesus. Estabeleceriam um pouso
e refúgio aos desamparados, ensinariam as verdades do Evangelho a todos os
espíritos de boa-vontade e, como mãe e filho, iniciariam uma nova era de amor, na
comunidade universal.
Maria aceitou alegremente.
Dentro de breve tempo, instalaram-se no seio amigo da Natureza, em frente do
oceano. Éfeso ficava pouco distante; porém, todas as adjacências se povoavam
de novos núcleos de habitações alegres e modestas. A casa de João, ao cabo de
algumas semanas, se transformou num ponto de assembléias adoráveis, onde as
recordações do Messias eram cultuadas por espíritos humildes e sinceros.
Maria externava as suas lembranças. Falava dele com maternal enternecimento,
enquanto o apóstolo comentava as verdades evangélicas, apreciando os ensinos
recebidos. Vezes inúmeras, a reunião somente terminava noite alta, quando as
estrelas tinham maior brilho. E não foi só. De-
corridos alguns meses, grandes fileiras de necessitados acorriam ao sitio singelo e
generoso. A notícia de que Maria descansava, agora, entre eles, espalhara um
clarão de esperança por todos os sofredores. Ao passo que João pregava na
cidade as verdades de Deus, ela atendia, no pobre santuário doméstico, aos que a
procuravam exibindo-lhe suas úlceras e necessidades.
Sua choupana era, então, conhecida pelo nome de “Casa da Santíssima”.
O fato tivera origem em certa ocasião, quando um miserável leproso, depois de
aliviado em suas chagas, lhe osculou as mãos, reconhecidamente murmurando:
“Senhora, sois a mãe de nosso Mestre e nossa Mãe Santissima!”
A tradição criou raízes em todos os espíritos. Quem não lhe devia o favor de uma
palavra maternal nos momentos mais duros? E João consolidava o conceito,
acentuando que o mundo lhe seria eternamente grato, pois fora pela sua grandeza
espiritual que o Emissário de Deus pudera penetrar a atmosfera escura e
pestilenta do mundo para balsamizar os sofrimentos da críatura. Na suahumildade sincera, Maria se esquivava às homenagens afetuosas dos discípulos
de Jesus, mas aquela confiança filial com que lhe reclamavam a presença era
para sua alma um brando e delicioso tesouro do coração. O título de maternidade
fazia vibrar em seu espírito os cânticos mais doces. Diariamente, acorriam os
desamparados, suplicando a sua assistência espiritual. Eram velhos trôpegos e
desenganados do mundo, que lhe vinham ouvir as palavras confortadoras e
afetuosas, enfermos que invocavam a sua proteção, mães infortunadas que
pedjam a bênção de seu carinho.
“Minha mãe dizia um dos mais aflitos como poderei vencer as minhas
dificuldades? Sinto-me abandonado na estrada escura da vida. .
Maria lhe enviava o olhar amoroso da sua bondade, deixando nele transparecer
toda a dedicação enternecida de seu espírito maternal.
“Isso também passa! dizia ela, carinhosamente só o Reino de Deus é bastante
forte para nunca passar de nossas almas, como eterna realização do amor
celestial.”
Seus conceitos abrandavam a dor dos mais desesperados, desanuviavam o
pensamento obscuro dos mais acabrunhados.
A igreja de Éfeso exigia de João a mais alta expressão de sacrifício pessoal, pelo
que, com o decorrer do tempo, quase sempre Maria estava só, quando a legião
humilde dos necessitados descia o promontório desataviado, rumo aos lares mais
confortados e felizes. Os dias e as semanas, os meses e os anos passaram
incessantes, trazendo-lhe as lembranças mais ternas. Quando sereno e azulado, o
mar lhe fazia voltar à memória o Tiberíades distante. Surpreendia no ar aqueles
perfumes vagos que enchiam a alma da tarde, quando seu filho, de quem nem um
instante se esquecia, reunindo os discípulos amados, transmitia ao coração do
povo as louçanias da Boa Nova. A velhice não lhe acarretara nem cansaços nem
amarguras. A certeza da proteção divina lhe proporcionava ininterrupto consolo.
Como quem transpõe o dia em labores honestos e proveitosos, seu coração
experimentava grato repouso, iluminado pelo luar da esperança e pelas estrelas
fulgurantes da crença imorredoura. Suas meditações eram suaves colóquios com
as reminiscências do filho muito amado.
Súbito recebeu notícias de que um período de dolorosas perseguições se havia
aberto para todos os que fossem fiéis à doutrina do seu Jesus divino. Alguns
cristãos banidos de Roma traziam a Éfeso as tristes informações. Em obediência
aos éditos mais injustos, escravizavam-se os seguidores do Cristo, destruíam-se-Ihes os lares, metiam-nos a ferros nas prisões. Falava-se de festas públicas, em que seus corpos eram dados como
alimento a feras insaciáveis, em horrendos espetáculos.
Então, num crepúsculo estrelado, Maria entregou-se às orações, como de
costume, pedindo a Deus por todos aqueles que se encontrassem em angústias
do coração, por amor de seu filho.
Embora a soledade do ambiente, não se sentia só:
uma como força singular lhe banhava a alma toda. Aragens suaves sopravam do
oceano, espalhando os aromas da noite que se povoava de astros amigos eafetuosos e, em poucos minutos, a lua plena participava, igualmente, desse
concerto de harmonia e de luz.
Enlevada nas suas meditações, Maria viu aproximar-se o vulto de um pedinte.
Minha mãe exclamou o recém-chegado, como tantos outros que recorriam ao
seu carinho —, venho fazer-te companhia e receber a tua bênção.
Maternalmente, ela o convidou a entrar, impressionada com aquela voz que lhe
inspirava profunda simpatia. O peregrino lhe falou do céu, confortando-a
delicadamente. Comentou as bem-aventuranças divinas que aguardam a todos os
devotados e sinceros filhos de Deus, dando a entender que lhe compreendia as
mais ternas saudades do coração. Maria sentiu-se empolgada por tocante
surpresa. Que mendigo seria aquele que lhe acalmava as dores secretas da alma
saudosa, com bálsamos tão dulçorosos? Nenhum lhe surgira até então para dar;
era sempre para pedir alguma coisa. No entanto, aquele viandante desconhecido
lhe derramava no íntimo as mais santas consolações. Onde ouvira noutros tempos
aquela voz meiga e carinhosa?! Que emoções eram aquelas que lhe faziam pulsar
o coração de tanta carícia? Seus olhos se umedeceram de ventura,
sem que conseguisse explicar a razão de sua terna emotividade.
Foi quando o hóspede anônimo lhe estendeu as mãos generosas e lhe falou com
profundo acento de amor:
“Minha mãe, vem aos meus braços!”
Nesse instante, fitou as mãos nobres que se lhe ofereciam, num gesto da mais
bela ternura. Tomada de comoção profunda, viu nelas duas chagas, como as que
seu filho revelava na cruz e, instintivamente, dirigindo o olhar ansioso para os pés
do peregrino amigo, divisou também aí as úlceras causadas pelos cravos do
suplício. Não pôde mais. Compreendendo a visita amorosa que Deus lhe enviava
ao coração, bradou com infinita alegria:
“Meu filho! meu filho! as úlceras que te fizeram!. . .“
E precipitando-se para ele, como mãe carinhosa e desvelada, quis certificar-se,
tocando a ferida que lhe fora produzida pelo último lançaço, perto do coração.
Suas mãos ternas e solícitas o abraçaram na sombra visitada pelo luar,
procurando sofregamente a úlcera que tantas lágrimas lhe provocara ao carinho
maternal. A chaga lateral também lá estava, sob a carícia de suas mãos. Não
conseguiu dominar o seu intenso júbilo. Num ímpeto de amor, fez um movimento
para se ajoelhar. Queria abraçar-se aos pés do seu Jesus e osculá-los com
ternura. Ele, porém, levantando-a, cercado de um halo de luz celestial, se lhe
ajoelhou aos pés e, beijando-lhe as mãos, disse em carinhoso transporte:
“Sim, minha mãe, sou eu!... Venho buscar-te, pois meu Pai quer que sejas no
meu reino a Rainha dos Anjos. .
Maria cambaleou, tomada de inexprimível ventura. Queria dizer da sua felicidade,
manifestar seu agradecimento a Deus; mas o corpo como que se lhe paralisara,
enquanto aos seus ouvidos chegavam os ecos suaves da
saudação do Anjo, qual se a entoassem mil vozes cariciosas, por entre as
harmonias do céu.No outro dia, dois portadores humildes desciam a Éfeso, de onde regressaram
com João, para assistir aos últimos instantes daquela que lhes era a devotada
Mãe Santíssima.
Maria já não falava. Numa inolvidável expressão de serenidade, por longas horas
ainda esperou a ruptura dos derradeiros laços que a prendiam à vida material.
A alvorada desdobrava o seu formoso leque de luz quando aquela alma eleita se
elevou da Terra, onde tantas vezes chorara de júbilo, de saudade e de esperança.
Não mais via seu filho bem-amado, que certamente a esperaria, com as boasvindas, no seu reino de amor; mas, extensas multidões de entidades angélicas a cercavam cantando hinos de glorificação.
Experimentando a sensação de se estar afastando do mundo, desejou rever a
Galiléia com os seus sítios preferidos. Bastou a manifestação de sua vontade para
que a conduzissem à região do lago de Genesaré, de maravilhosa beleza. Reviu
todos os quadros do apostolado de seu filho e, só agora, observando do alto a
paisagem, notava que o Tiberíades, em seus contornos suaves, apresentava a forma quase perfeita de
um alaúde. Lembrou-se, então, de que naquele instrumento da Natureza Jesus
cantara o mais belo poema de vida e amor, em homenagem a Deus e à
humanidade. Aquelas águas mansas, filhas do Jordão marulhoso e calmo, haviam
sido as cordas sonoras do cântico evangélico.
Dulcíssimas alegrias lhe invadiam o coração e já a caravana espiritual se dispunha
a partir, quando Maria se lembrou dos discípulos perseguidos pela crueldade do
mundo e desejou abraçar os que ficariam no vale das sombras, à espera das claridades
definitivas do Reino de Deus. Emitindo esse pensamento, imprimiu novo impulso
às multidões espirituais que a seguiam de perto. Em poucos instantes, seu olhar
divisava uma cidade soberba e maravilhosa, espalhada sobre colinas enfeitadas
de carros e monumentos que lhe provocavam assombro. Os mármores mais ricos
esplendiam nas magnificentes vias públicas, onde as liteiras patrícias passavam
sem cessar, exibindo pedrarias e peles, sustentadas por misérrimos escravos.
Mais alguns momentos e seu olhar descobria outra multidão guardada a ferros em
escuros calabouços. Penetrou os sombrios cárceres do Esquilino, onde centenas
de rostos amargurados retratavam padecimentos atrozes. Os condenados
experimentaram no coração um consolo desconhecido.
Maria se aproximou de um a um, participou de suas angústias e orou com as suas
preces, cheias de sofrimento e confiança. Sentiu-se mãe daquela assembléia de
torturados pela injustiça do mundo. Espalhou a claridade misericordiosa de seu
espírito entre aquelas fisionomias pálidas e tristes. Eram anciães que confiavam
no Cristo, mulheres que por ele haviam desprezado o conforto do lar, jovens que
depunham no Evangelho do Reino toda a sua esperança. Maria aliviou-lhes o
coração e, antes de partir, sinceramente desejou deixar-lhes nos espíritos
abatidos uma lembrança perene. Que possuía para lhes dar? Deveria suplicar a
Deus para eles a liberdade?! Mas, Jesus ensinara que com ele todo jugo é suave
e todo fardo seria leve, parecendo-lhe melhor a escravidão com Deus do que a
falsa liberdade nos desvãos do mundo. Recordou que seu filho deixara a força da
oração como um poder incontrastável entre os discípulos amados. Então, rogouao Céu que lhe desse a possibilidade de deixar entre os cristãos oprimidos a força
da alegria. Foi quando, aproximando-se de uma jovem encarcerada, de rosto descarnado e macilento, lhe disseao ouvido:
“Canta, minha filha! Tenhamos bom ânimo!... Convertamos as nossas dores da
Terra em alegrias para o Céu!..
A triste prisioneira nunca saberia compreender o porquê da emotividade que lhe
fez vibrar subitamente o coração. De olhos extáticos, contemplando o firmamento
luminoso, através das grades poderosas, ignorando a razão de sua alegria, cantou
um hino de profundo e enternecido amor a Jesus, em que traduzia sua gratidão
pelas dores que lhe eram enviadas, transformando todas as suas amarguras em
consoladoras rimas de júbilo e esperança. Daí a instantes, seu canto melodioso
era acompanhado pelas centenas de vozes dos que choravam no cárcere,
aguardando o glorioso testemunho.
Logo, a caravana majestosa conduziu ao Reino do Mestre a bendita entre as
mulheres e, desde esse dia, nos tormentos mais duros, os discípulos de Jesus
têm cantado na Terra, exprimindo o seu bom ânimo e a sua alegria, guardando a
suave herança de nossa Mãe Santíssima.
Por essa razão, irmãos meus, quando ouvirdes o cântico nos templos das diversas
famílias religiosas do Cristianismo, não vos esqueçais de fazer no coração um
brando silêncio, para que a Rosa Mística de Nazaré espalhe ai o seu perfume.
Fonte: Livro Boa Nova

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Acústico Água da Vida


A Diferença entre Crer e ter Fé


“Se o espírito humano não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora talvez creia.
 Esse homem pode, em teoria, aceitar que Deus existe e, apesar disso, não ter fé" 

 

O notável professor, filósofo e humanista brasileiro, Huberto Rohden, em um de seus oportunos comentários inseridos no livro “A Mensagem Viva do Cristo”, obra que compreende a tradução feita por ele mesmo dos quatro evangelhos, diretamente do grego do primeiro século, convida-nos a refletir sobre a significativa distinção entre crer e ter fé. Para ele, a não compreensão dessa questão tem deturpado a teologia e trazido enorme prejuízo à mensagem do Cristo ao longo desses 2000 anos.

Escreve ele:

“Desde os primeiros séculos do Cristianismo, quando o texto grego do Evangelho foi traduzido para o latim, principiou a funesta identificação de crer com ter fé. A palavra grega para fé é pistis, cujo verbo é pisteuein. Infelizmente, o substantivo latino fides, o correspondente a pistis, não tem verbo e assim, os tradutores latinos se viram obrigados a recorrer a um verbo de outro radical para exprimir o gregopisteuein, ter fé. O verbo latino que substituiu o grego pisteuein é credere, que em português deu crer. Nenhuma das cinco línguas neo latinas — português, espanhol, italiano, francês, rumeno — possui verbo derivado do substantivo fides; fé; todas essas línguas são obrigadas a recorrer a um verbo derivado de credere. Ora, a palavra pistis ou fides significa originariamente harmonia, sintonia, consonância. Ter fé é estabelecer ou ter sintonia, harmonia entre o espírito humano e o espírito divino.”

Se o espírito humano não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora talvez creia

Para o ilustre filósofo, aí está um dos maiores problemas que em muito vem prejudicando a teologia e, para explicar a diferença de significado entre uma coisa e outra, estabelece ele o seguinte paralelo ilustrativo: “Um receptor de rádio só recebe a onde eletrônica emitida pela estação emissora, quando o receptor está sintonizado ou afinado perfeitamente com a freqüência da emissora. Se a emissora, por exemplo, emite uma onda de freqüência 100, o meu receptor só reage a essa onda e recebe-a quando está sintonizado com a freqüência 100. Só neste caso, o meu receptor tem fé, fidelidade, harmonia; fideliza com a emissora”.

Dentro desse contexto, “se o espírito humano não está sintonizado com o espírito de Deus, ele não tem fé, embora talvez creia. Esse homem pode, em teoria, aceitar que Deus existe e, apesar disso, não ter fé. Ter fé é estar em sintonia com Deus, tanto pela consciência como também pela vivência, ao passo que um homem sem sintonia com Deus pela consciência e pela vivência, pela mística e pela ética, pode crer vagamente em Deus. Crer é um ato de boa vontade; ter fé é uma atitude de consciência e de vivência”, argumenta o professor Rohden.

Salvação não é outra coisa senão a harmonia da consciência e da vivência com Deus

Para ele, a conhecida frase “quem crer será salvo, quem não crer será condenado”, é absurda e blasfema no sentido em que ela é geralmente usada pelos teólogos. No entanto, “se lhe dermos o sentido verdadeiro ‘quem tiver fé será salvo’ ela está certa, porque salvação não é outra coisa senão a harmonia da consciência e da vivência com Deus”.

Em sua opinião, de sincero buscador, erudito e filósofo espiritualista “a substituição de ter fé por crer há quase 2000 anos, está desgraçando a teologia, deturpando profundamente a mensagem do Cristo”.